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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ÍCONES DO JORNALISMO POLICIAL

Poucos daqueles que iniciam a carreira de jornalista na área policial continuam no setor e buscam a adequada especialização. A maioria dos repórteres usa o jornalismo policial como trampolim para outras editorias.

Alguns nomes são ícones nessa área: Caco Barcellos; Gil Gomes, Marcelo Rezende; José Luiz Datena, e Tim Lopes (já falecido). Linha Direta (da Rede Globo); Cidade Alerta (Rede Record), Brasil Urgente (Bandeirantes) são os programas mais
conhecidos que abordam o tema policial.

LINGUAGEM

“Ao avistar a guarnição da polícia o elemento empreendeu fuga em desabalada carreira, pulando muros e invadindo quintais. Depois o meliante adentrou num matagal, tomando rumo ignorado”. Se você acompanha programas policias deve ter percebido que o texto acima faz parte da linguagem simbólica das policiais Militar e Civil, um pouco mais da primeira instituição.

O “mundo policial” tem alguns vocábulos entendidos apenas por àqueles que fazem parte da instituição. Na maioria das vezes, esses comandos ou gírias estabelecem níveis de comunicação entre os membros da corporação. O objetivo é manter o conteúdo de mensagens importantes, restritas a seus membros, evitando o vazamento desnecessário de operações da força para mãos erradas.

O jornalista policial acaba se envolvendo nessa linguagem simbólica e aprendendo seus significados. O repórter-foca (iniciante) é capaz de não compreender uma ocorrência policial registrada numa delegacia qualquer. É comum o repórter policial encontrar termos como mocó (esconderijo); meliante (bandido); invólucro (papelote de droga); minuciosa (abordagem completa no suspeito); cão (revólver); chuço (policiais escrevem chuncho – arma artesanal pontiaguda, geralmente fabricada no interior dos presídios); tereza (corda feita com lençóis, geralmente usada para fuga em presidiários); cavalo doido (vários presos correndo ao mesmo tempo rumo ao muro para tentar fuga das unidades prisionais); x-9 (delator, o chamado dedo-duro); arma da casa (emboscada). Oxi (cocaína oxidada, pura); RP (Rádio Patrtulha); positivo/operante (ok durante a operação). Isso sem incluir os códigos usados somente entre os militares.

Pois bem. Imagine você um repórter iniciante chegando à delegacia logo pela manhã se depara com uma ocorrência onde o policial narrou: “A guarnição RP 0000 em patrulhamento de rotina pela zona Leste de Porto Velho deparou-se com dois elementos em atitudes suspeitas, saindo de um mocó. Em revista minuciosa aos meliantes, foram encontrados 30 invólucros de oxi, dois chuços e um revólver. Os acusados confessaram que fugiram recentemente do presídio Urso Branco. Na fuga usaram um tereza e o revólver usariam para armar a casa de um rival. Os conduzidos foram encaminhados para a delegacia, para que o delegado tome as medidas de praxe.

Para o perfeito entendimento da ocorrência o repórter precisaria perguntar alguns termos aos policiais. O problema – na visão de especialistas – é que repórteres policiais, principalmente os que trabalham na TV e rádio estão incorporando essa linguagem nas reportagens, usando os mesmos termos aos leitores/espectadores/ouvintes. É comum alguns repórteres produzindo matéria chamando o suspeito de meliante; dizendo que os acusados presos num mocó no bairro das Quebradas.

O delegado Márcio Mendes Moraes, titular da Delegacia de Homicídios, disse que, a maioria das gírias é criada por bandidos, para despistar a ação da polícia. A gíria mais recente criada no meio criminal é a “Cega”. De acordo com o contexto da história a gíria pode ter um significado diferente, mas na maioria das vezes o seu uso é para desmentir algo. Por exemplo: quando um crime é atribuído a um suspeito e este suspeito é questionado sobre o crime, logo ele responde: “é cega”, referindo-se que a informação repassada para a polícia é mentirosa.

CONCEITO

O jornalismo policial está conceituado no que se refere à especialização da profissão jornalística nos fatos criminais, judiciais, de segurança pública, do sistema penitenciário e em investigações policiais. Os iniciantes no jornalismo - os chamados focas - em quase 100% dos casos começam no jornalismo policial. No jargão interno da profissão, o setor é chamado de RePol (de Reportagem Policial). As matérias da cobertura policial são geralmente publicadas nas editorias de Cidade, Polícia ou JuPol (Justiça/Polícia).

Sites especializados no assunto mostram que, “as primeiras coberturas de polícia surgiram por volta de meados do século XIX, nos jornais sensacionalistas da Inglaterra e dos Estados Unidos. Os repórteres de polícia podem ou não utilizar técnicas de apuração do jornalismo investigativo.

O sensacionalismo

O jornalismo policial é a editoria jornalística que recebe a maior crítica pela forma sensacionalista como alguns repórteres tratam suas matérias. Sites que analisam o tema relatam que, o policial precisa tomar cuidado com os jornalistas, pois uma palavra dita a mais ou a menos pode ter conseqüências drásticas para a instituição que o policial serve.
O major PM Menezes, comandante da Rondesp (PMBA), disse que vê os jornalistas como parceiros, e não tem o conflito que costuma marcar esse tipo de relação. Jorge Antonio de Barros, jornalista de O Globo que cobre criminalidade e segurança pública no Rio de Janeiro desde 1981, já disse que faz questão de se aprofundar no tema segurança pública, para não se ver publicando parcialidades. “Aos jornalistas, sugiro a dedicação profunda ao tema segurança pública e polícia, e a todos os fatos que se dedicarem a cobrir, ouvindo, inclusive (e principalmente) a versão e o ponto de vista do policial — às vezes mais importante até do que a versão da Polícia enquanto instituição.

Lembra também que, ao policial, é imprescindível a visão do jornalista como um divulgador do bom trabalho realizado, dos esforços despendidos em cada ação, e, inclusive, das carências por que passamos para exercer nossas funções. Mas, lembremos: as boas ações serão divulgadas tanto quanto às más, pelo menos, é assim que tem que ser.

Para a população em geral, quando o assunto é reportagem policial, o conceito de “jornalismo sensacionalista” logo vem à cabeça. Em geral, as coberturas investigativas recebem atenção especial da população (a cada dez pessoas ouvidas pela reportagem na região central de Porto Velho, sete acompanham os noticiários policiais). No entanto, há críticas referentes às produções.

Quando as prisões são de pessoas desconhecidas, a mídia em geral (TVs, jornais impressos, rádios e sites) usam – conforme os entrevistados – um certo sensacionalismo. O mesmo não acontece quando ocorrem às prisões dos chamados “figurões” (pessoas influentes e/ou conhecidas na cidade), foi o que avaliou o limpador de piscinas Edmarcos Silva Pinho.

O jornalista (pelo policial)

Sensacionalista e interesseiro, costuma fazer perguntas capciosas no intuito de fazer com que o policial se enrole em uma entrevista. Nunca ouve o lado da polícia, e desconfia que o que falamos é mentira. Nos vê como matadores, truculentos, corruptos e ignorantes.

O policial (pelo jornalista)

Truculento e corrupto, costuma esconder os abusos que faz em sua atuação. Não sabe falar, e não colabora com a imprensa, que nada mais quer do que tornar claro para a sociedade a polícia que ela tem. A polícia age como se ainda estivesse na Ditadura, sem querer dar satisfação aos cidadãos.

O perigo do jornalismo policial

Alguns atos criminosos – como foi o assassinato do jornalismo Tim Lopes, da Rede Globo, em julho de 2002 – deixam claro que bandidos “adotaram” os jornalistas como inimigos, tanto quanto são os policiais. Tudo isso porque a polícia já desarticulou muitos grupos criminosos após a divulgação de reportagens investigativas. Essas ações contra jornalistas são desencadeadas, principalmente, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Por lidar com crime e criminosos, muitas vezes de alta periculosidade, o Jornalismo Policial é uma especialização de alto risco para os profissionais, principalmente os repórteres apuradores que vão às ruas e se expõem aos criminosos e aos policiais. Além dos próprios bandidos, o jornalista desta área pode sofrer ainda retaliações ou ameaças de policiais corruptos.

O jornalista Caco Barcelos precisou morar fora do Brasil após a publicação do livro Rota 66, que irritou profundamente algumas esferas, sobretudo a dos coronéis da Polícia Militar. O livro – que custou oito anos de pesquisa – levou à identificação de 4.200 vítimas, todos jovens e pobres, mortos pela Polícia Militar de São Paulo.